TERRITÓRIO

Paisagens da Transumância

“A gesta do movimento de gentes e de gados, o ir e o regressar, desenhou no espaço uma rede geradora de poliédricas complementaridades proporcionando uma fluidez de permutas materiais e espirituais, de maneiras de ser, de fruir, de ver e de percepcionar as terras e os homens. O termo transumância, etimologicamente advém do radical trans com o significado de “além de” unido a humus, “terra”. Esta singularidade do «ir além da terra», encerra toda uma determinante componente da existência que rompeu com os horizontes previamente domesticados e que percorreu dimensões espacio-arquitectónicas plurais, naturais e culturais, construindo peculiar cartografia de cooperações e de cumplicidades. A relação estreita que sabiamente se estabeleceu ao longo de milénios entre homens e animais, equilibrando o território e os recursos ritmados pela doçura ou pela agrura das estações, reperfila-se na fugacidade contemporânea, como um caminho a ser retomado, recuperando e aprofundando uma cada vez mais necessária, mas tantas vezes esquecida, simbiose ecológica entre o homem e o seu ambiente. Um reencontro que é cada vez mais sentido como uma premente necessidade face ao desmoronar do tempo longo da primitiva ruralidade portuguesa. Uma junção que contemple sempre a visibilidade das memórias, das heranças e dos saberes em conjugação com os novos usos da paisagem. Afinal, as palavras transumância e transcendência possuem, na sua raiz, um âmago comum. E é isso o que interessará. O ir para “além de”, “para lá de” mapeia um trilho que conduz até outra dimensão, indicando um renovado rumo às recordações das nossas raízes.”

Pedro Miguel Salvado & Miguel Rainha 
in Virtual Museum of European Transumance.